terça-feira, 24 de março de 2009

Apis

Como uma abelha
colho o néctar
nos doces campos do teu sorriso
e, com frêmito e paixão,
descubro teu mel dentro de mim.
Não tenho mãos para apanhar estrelas...

Não posso te dar a Lua
O Sol
Nem o céu.

Mas já é teu o meu cio.
Se meu vendaval te assusta

- Calma! -

Me dê tua mão
e voe comigo!
Pra onde parto
hoje
não há porto.

Posso ancorar
meu barco
no teu corpo?

Espetáculo

Uns cantam
outros dançam.

Alguns aplaudem.

Eu?
Eu ardo.

Silenciares

Minh'alma
sempre amarela e barulhenta
luz acesa
janela aberta

hoje trancou a porta
tapou as frestas
cerrou cortinas
e deitou no escuro.

Minha alma hoje
não sofre de amor
ou solidão.

Não me aflige a dor
ou a loucura.

Minha alma sofre apenas de silêncio.

Odonata

Vôo livre
pelas brisas
e pouso leve
no remanso do teu beijo...

Me acorde de mansinho.

Acordo com fome
e meu café da manhã
pode ser você.

PT saudações.

Levantei bandeiras
Fiz passeatas
Gritei em coro
e colei cartazes

Tudo isso pela revolução que ele pregou.

E agora, Luis?

Perdoa a acidez,
mas cadê a revolução?

Foi embora com a barba
ou escondeste no bolso do teu novo terno?

Pra minha humilde ideologia
tua estrela já não brilha mais.

PoeAmor

Magia que fez da lua a manhã nascendo
Delícia que vem de dentro
e escapa entre os risos e beijos

Os olhos e a alma subvertendo suspiros
Violentando as formas e
decorando geografias íntimas

A boca degusta com ânsia e desejo
explosões de prazer em demasia
e descobre, em êxtase, uma poesia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Se o coração dói
e nem mesmo a Maravilha Curativa têm efeito

È hora de ignorar aos médicos
e entregá-lo aos loucos...

Adiposidades

Meu ventre saliente não abriga ninguém.

É apenas depósito de tortura.

EspelhossohlepsE

O peso no peito incomoda mais
que os quilos a mais.
Incomodam mais os vãos na memória
que as dobras na pele.
Mais incomoda o silêncio interior
que o volume dos cabelos.

O que incomoda mesmo é o espelho da alma.

Nós e corpos.

Pêlo, pele, pólo
pulo!
Salto sobre teu corpo
morno
e sigo tuas curvas
fartas
de peitos
e jeitos
e cheiros diversos...

Corpo
que se torna febril
ao meu beijo
quente
e vejo
em teu olhos
boca
e ventre
o arrepio.

Entre lençóis
nós.
Entre o fogo das velas
dos corpos insanos
das chamas

insaciáveis nós.

Bucólicas

Estou triste...
Não de uma tristeza bucólica
como a dos árcades e seus amores eternos.

Triste da tristeza que fere,
dilacera.
Lateja no peito
e se tivesse voz teria a força de um tufão.

A injustiça e a hipocrisia me saltam aos olhos
E nada faço.

Também eu fui envenenado
pelo mal do mundo.

Uirapuru

Ah, coisa louca
e inexplicável como o canto do uirapuru.
Pouse em meu sexo
e ali faça teu ninho.

Demoradamente.

Do fogo noturno.

Despertou
meus dragões adormecidos
e os deixou tontos de desejo.

Agora
eles passam a noite
a planejar tua conquista.
E cospem fogo.

Adivinhe você onde ele arde.

Tango

Quero dançar contigo agora.
Um tango. De Gardel.
Com direito a uma rosa vermelha como fogo
Incendiando Buenos Aires.

***

Me empreste teu fósforo.
Quero riscá-lo em mim
e acender teu fogo.

De Dante.

Em meus pensamentos
teus beijos.
Em meu corpo
teu calor.
Em meus olhos
a visão do teu corpo nú.
Em minha boca
o gosto de algo escondido.
Uma miscelânia de luxúria
e prazer.
E um fogo que continua a queimar
mesmo depis do incêndio
que provocamos naquela manhã.

Presença.

Sei que fiquei em ti.
Em tuas roupas
teu travesseiro
deitada em teus lençóis
escorada na janela do teu quarto.

Meus cabelos pela casa
e meu cheiro em tua memória.

Quando sentires saudade,
desatinado,
põe na vitrola aquele disco,
junta minhas lembranças pela casa
e me procura dentro do teu peito.

Verso perdido

Cantem!

Contem pra ele que sofro
como pássaro
sem asas, sem ninho
e sem paradeiro.

Minha liberdade é minha prisão.

Plano de Fuga

Minha prisão não tem asas
Paredes ou grades
e nem mesmo sirenes

Não tem horários
guardas nem banho de sol.

Tem somente
e tão somente
uma carcereira
e eu.

A tristeza é minha prisão.

E traço agora,
em breves linhas
um plano de fuga.

Bastares.

Que mais que se quer?
Não basta o silêncio
as vozes amigas e um disco antigo.
È preciso o barulho
o nome gritado nas ruas.

Tampouco basta o sol
a nascer e morrer sobre o mar
e a lua cheia de seus mistérios
O que se quer são as luzes
de um novo shopping center.

Basta um corpo morno
com cheiro de café feito na hora
e beijos sinceros entre risos?

Não!

Tem que ser o corpo perfeito
vestido para matar
com fogo de palha.

E onde, meu Deus, onde a inocência perdida?

Do jornal.

Pego o jornal
Não são quadrinhos que busco
Crônicas políticas, economia circense
Fraudes, sequestros de diplomatas
ou o campeão do Estadual.

Meus olhos buscam
afoitos
pelos classificados.

Eu procuro por um mundo melhor.

***

E lá se vão meus verdes anos
apodrecendo no galho da vida...

***

Um gemido some na madrugada.
Mais uma trágica notícia de jornal?


Nada,
é apenas o amos sendo descoberto.

***

O relógio na parede
desfia o tempo através dos tempos

Eu tenho é saudade
dos tempos que não foram.

***

As ondas da ressaca
lambem a praia estendida

Virá
- quem sabe -
em alguma delas
o que há tanto procuro?

***

Lembranças são como velhos navios naufragados.

È nas nossas marés mais baixas
Que eles mostram seus mastros
e mortos.

***

O mundo é surdo.
Não ouve o pulsar incessante da terra
O cair da noite
A lagarta criando asas.

Um dia,
eu vou criar asas
e voar daqui.

Que tosco e surdo mundo esse!

***

Tem gente que guarda tanta coisa
dentro de si
que quando fala
só o que se ouve são caixas
- caindo surdas -
e traças voando.

***

' Somos gestantes da alma'
- disse Quintana.

Caso a alma esteja morta,
é permitido o aborto?

segunda-feira, 9 de março de 2009

Buquê

Respiro ofegante
Lufadas de ar perfumado
Verbena?
Miosótis?
Lilases?

Não sei.

Sei apenas que é primavera em teus seios.

domingo, 8 de março de 2009

Da fé (ao estilo de Quintana)

Nos braços que tangem compassos sem som
Nas manhãs tão castas que iniciam antes do sol
Nas mentes cansadas que agem mecanicamente
Estão os homens cansados do tempo que passa correndo na calçada ao lado.

As crianças que dormem ambaladas por doces cantigas
O cheiro do café, o asseio das modestas casas do subúrbio
A dupla jornada entre um amor falido e a frustração cotidiana
Na sutil vaidade estão as mulheres que esquecem de si diante da vida.

Nada a perder, a não ser a fé.

E que deus há de lembrar de ti,
que embalado na febril canção dos dias úteis,
esqueceu como falar com o universo?

Lupina

Nos teus olhos
- escuros como a noite que vimos dormir pra que viesse o Sol -
me perco.

Não conheço teus caminhos,
e por isso ando em círculos como um animal ferido.

Quem dera tivesse o brilho capaz de acender estrelas!

Melodias

Escrevo poemas.

Espeto palavras
vivas como borboletas batendo asas
na palidez generosa dessas páginas em branco.

Posso sentir-lhes a vida
o sangue pulsando em cada vírgula,
as lágrimas dos temíveis pontos finais.

Palavras as tenho como o ar que respiro.

Ah, mas que falta me fazem as melodias!

Soul livre.

Se por entre meus abismos tu me persegues
È porque reconheces que em terras planas nunca me terás.

Minha alma não conhece horizontes
e a liberdade me dá asas para saltar todos os vãos.

Botânica

Posso ser dura
casca fosca
semente que engasga
caroço incômodo
aquele bagaço que sobra no final.

Mas pra ti
sou polpa madura
que escorre pelos cantos
da tua boca em mim...

Borrão.

E agora
que te tatuei no peito?

Rindo, louco, lindo
e cheio de defeito!

E

mesmo que essa chuva nunca pare de cair
Ainda assim
verei luz de sol
andarei livre
colhendo frutas e criando cores
pelos campos do teu sorriso.

Alice Dê.

E o que tomo
me toma
- de assalto -
e me joga ao chão

para que veja
a dança das estrelas

que giram

no céu.

Voando

pelo ar
entre as luzes sob as quais és o foco

Movimentos

Que prendem meus olhos
como fossem alfinetes no peito

Cada gesto, cada acorde

Toda nota me toca
como se fora eu aquele instrumento

E a canção que surgiu do encontro

- a poesia que me escapa dos lábios
a melodia que te foge a alma -

encantou os ventos que a sopraram pelos ares.

Sol


Teu cheiro me sobe as entranhas
Invade as narinas
e causa arrepios.

Teu gosto de sol me falta
e preciso buscar em mim
tua boca sedenta a me beijar.


Mas basta fechar os olhos,
que tua pele me roça a face
e tenho em meu corpo teu corpo novamente.
De repente me veio teu gosto...

E do cheiro da grama molhada brotou um sorriso.